OS 15 ANOS DA MORTE DO PERSONAGEM MAIS CONHECIDO DA PRESIDENTE VARGAS



Hoje, reproduzo a Coluna de ontem do brilhante jornalista Elias Ribeiro Pinto, que traz a memória um ser humano pequeno e emblemático que marcou a infância de muitos que já estão na fase de vacinados ou quase lá. O ser foi muitas vezes atropelado por passantes e devo me incluir neste rol. Vale à pena conferir de novo!

Corria o boato de que era mulherengo e bom de copo. Ele negava essa (última) fama. “Tomo só um conhaque com leite, às vezes, para combater a gripe.”


“Já vi muita gente saltar desses prédios em volta para a morte. Eu, que nasci assim, sem pernas e sem mãos, não sei o que é tristeza na vida.” Era com a experiência de quem passara quase 40 anos a pedir esmolas no mesmo local, na Presidente Vargas esquina com Riachuelo, de segunda a sábado, num expediente que ia das oito da manhã às sete da noite, que o bragantino Manoel de Souza Melo se dizia um homem feliz.
Sendo um de seus tipos mais conhecidos, era praticamente ignorado pela cidade, que fazia de conta não ver seu meio metro de corpo fincado, feito um gnomo, numa das áreas de maior circulação de Belém. Parecia fazer parte da calçada, como um gnomo faz parte do jardim de uma casa.
Mesmo fazendo de conta que não o viam, os milhares de passantes sabiam que ele estaria ali, a ser devidamente contornado. Já as crianças o viam muito bem e até paravam (com a espontânea e não menos cruel curiosidade infantil) para admirar aquele estranhíssimo toco de gente, chegando a se ombrear com o estranho personagem para constatar que era, uau, menor do que elas.
A legião das minhas filhas experimentou a sensação de cruzarem, desde criancinhas, com esse homem-toco. Quando comuniquei a morte dele, em 2006 (ou seja, são 15 anos de seu desaparecimento), para a mais novinha, ela duvidou: pai, mas ele também morre?, perguntou, com a incredulidade de quem não compreende a chegada da indesejada das gentes, ainda mais se ocorrida a um ser tão fabuloso.
Ele parecia mesmo imortal, uma espécie de Fantasma, o espírito que esmola. Também o conheci garoto, rapazote, ao lado do meu pai. Em seu expediente a céu aberto, Manezinho, ou Boneco Fofinho (podem crer, era como preferia ser chamado, ele próprio me confessou isso), não se considerava um pedinte, um mendigo. “Eu jamais peço, as pessoas é que passam e me dão.”
Esse longevo ofício (tinha mais de 60 anos ao morrer) garantiu a Manoel de Souza Melo casa própria (no Guamá), que dividia com a mulher, Graça, e seis filhos. Como deficiente físico, recebia pensão de um salário mínimo.
O homem(zinho), de tão célebre, marca presença num dos romances de Haroldo Maranhão, “Rio de Raivas”, acho. O escritor destaca certo paralelismo latitudinal do Manezinho com as ilhargas, as coxas (principalmente as femininas) que lhe cruzam e descruzam em torno. A curiosidade das crianças era tão ou mais implacável. Mas, estoico, o personagem suportava umas e outras.
Para manter estável seu peso (em torno de 35 quilos), nosso gnomo seguia dieta espartana. Passava o dia à base de suco. Evitava refrigerante e pão. No almoço, se desse, um franguinho na grelha. Trazido pelos filhos. À guisa de jantar, um cafezinho.
Corria o boato de que era mulherengo e bom de copo. Ele negava essa (última) fama. “Tomo só um conhaque com leite, às vezes, para combater a gripe.” Para quem vivia exposto a sol e chuva, tendo apenas um boné como proteção, a receita teve sua valência. “Eu não falto ao serviço”, falou-me com orgulho, operário padrão. De que se queixava, mesmo, era da poluição, “dessa poeira e fumaça dos carros. Isso é que mata. Sinto, às vezes, falta de ar”.
Em época de eleição, a serpente da política costumava lhe tentar. Disse ter sido convidado para concorrer a vereador. “Detesto política”, desdenhava.
Boneco Fofinho foi, certamente, um dos tipos mais populares de Belém, uma de suas faces mais cotidianas, ainda que, paradoxalmente, invisível, incorpóreo.

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